A Emoção de Assistir Elizabeth Brown Ser Capeã Mundial aos 90 Anos
por Haroldo Cavalcanti- FEOPE
Elizabeth Brown Competindo

Passava de pouco mais das 11:30 do sábado 05 de junho, quando eu finalizava meu último percurso. Na quarta-feira foram 10,6 km com 350m de elevação, e na quinta 10,8 km e 250m. O terceiro percurso mais longo que eu enfrentara nos meus 4 anos de Orientação, com 9,0 km, estava acabando, pois o penúltimo prisma já fora marcado e eu estava na rota balizada. Acelerei mais um pouco. Dizem os fisiologistas que próximo a exaustão nosso célebro fica em decréscimo de sangue oxigenado, roubado pelos músculos, e não pensamos direito, daí que é bom decidir antes que direção vai tomar após atacar uma ladeira correndo porque senão lá no topo você fará besteira.

As cercas plásticas faziam uma curva suave à direita, o terreno era irregular mas plano, areia fofa de praia coberta com restos de madeira, cascas de pinheiro, e uma vegetação que parece musgo grosso e seco.
Minha juventude permitiu ultrapassar alguns atletas, que ficaram para trás como fantasmas, vultos que não conseguia reconhecer. Finalmente o prisma 200, fim de prova para mim e os demais que chegaram até ali. O som começou a retornar e a visão a fazer sentido. Me dei conta que algo mais estava acontecendo naquele instante e não era minha chegada. O locutor berravas palavras de incentivo e a multidão aos redor das grades batia palmas freneticamente, muitos tiravam fotos. O telão mostrava a cena para quem estava distante. Olhei para trás, para a pista, e entendi. Juntei-me a todos e comecei a aplaudir também.
A inglesa Elizabeth
Brown estava concluindo seu percurso para tornar-se, aos 90 anos de idade, uma Campeã Mundial!
Pódio do Sprint
Elizabeth Brown e Erkki Luntamo no pódio da Sprint

Caminhando determinada, passadas firmes, Dona Elizabeth passara a semana competindo no Campeonato Mundial de Orientação para Veteranos de 2008. Aquela era sua 5a prova em 7 dias. Na segunda-feira, 30 sagrara-se campeã mundial em provas do tipo 'sprint'. Para os puristas não vale. Agora sim. Depois de passar por duas provas de qualificação, cada uma com 1300 metros de distância e 30 de elevação, ela encontrara os 5 prismas, distantes 1300 metros, subindo e descendo uns 50 metros por pequenas dunas cobertas como no terreno da chegada.
Rune e o Autor
O Campeão Mundial da M90 Rune Haraldsson com o autor
Uma das forças do nosso esporte lá fora deve-se a longividade com que pode ser praticado. Foram inscritos mais de 3500 atletas com idade acima de 35 anos. Nada menos que 67 pessoas com mais de 80 anos, entre homens e mulheres, disputaram a final, passando primeiro por duas provas longas classificatórias. Considere ainda, que na final M80A os atletas correram para 15 prismas, com 4,1 km e quase 100 metros de elevação, com o vencedor, o Sr. Erkki Latti, da Finlândia, zerando o percurso em 00:51:01 ou 12,4 min/km. Não é tão pouco assim, pois dos 37 atletas masculinos da H35 que completaram a final B, 11 tiveram um desempenho abaixo disto, eu inclusive.
Lilliam Ross
A Vice-Campeã da W85, Lilliam Ross, com a brasileira Alcenir Melo e outras atletas do Japão

Elizabeth Brown, Lilliam Ross, Erkki Lutamo e Rune Haraldsson são exemplos do nosso esporte. Pessoas com 85 anos e mais que continuam a praticar um esporte singular.

PS. Dedico este texto a Sebastião Bezerra Marques. Vovô, que faleceu ano passado aos 94 anos, procurava viver a vida sem perder um minuto. Exímio jogador de damas e dominó, gostava dos versos de Zeca Pagodinho "Deixa a vida me levar Vida leva eu...".